6 coisas que aprendi em 8 anos como nômade digital
Kauai, Hawaii | Fevereiro 2019
Please note: escrevi esse post antes do COVID-19 | #stayhome.
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Nos mais de 8 anos trabalhando remotamente para empresas officeless, passei por algumas experiências que podem contribuir para outras pessoas que estão começando a investir nesse modelo de trabalho.
Confira neste post os principais aprendizados e dicas que podem ajudar na adaptação para o remote work.
1. AINDA É TRABALHO
Pode parecer óbvio, mas trabalhar remotamente ainda significa trabalho. Você precisará garantir entregas, prazos e resultados. Precisará participar de calls em horários inconvenientes, alinhar equipes e executar todas as atividades habituais de um trabalho em escritório.
Se você quer se desligar das suas responsabilidades profissionais, isso tem outro nome: férias (ou período sabático).
Lembro de acordar todos os dias às 4 da manhã quando me mudei para Vancouver e trabalhava para a Eureca. Por conta do fuso (Vancouver está 4 horas antes do horário de Brasília), eu tinha que estar de pé no horário comercial do cliente. Já na época em que trabalhava para a Educartis e viajava pela Europa, eu coordenava um projeto que teria um evento presencial em São Paulo. Foi um período um pouco desafiador em termos de demanda de trabalho, e eu conseguia aproveitar as viagens somente nos finais de semana.
Já na Califórnia, estabeleci a meta de organizar melhor meus horários. Com disciplina, consegui aproveitar melhor o lugar e me recusava a levar o computador para todo canto.
Não se engane com as fotos de nômades trabalhando com um laptop à beira da piscina ou na praia: ou ele não está focado 100% no que precisa fazer ou não está aproveitando o lugar. Eu prefiro fazer uma coisa de cada vez.
2. UM BOM SISTEMA É TÃO IMPORTANTE QUANTO UMA BOA INTERNET
Trabalhar de um café ou do lounge de um hostel não se compara à 4 horas de dedicação total em um lugar privativo e silencioso.
Uma necessidade básica de qualquer nômade digital é ter acesso à Internet com alta velocidade. Perdi a conta de quantas vezes me hospedei em hostels com uma conexão meia boca, o que acabava prejudicando muito a performance do meu trabalho. Depois que descobri o site nomadlist, passei a buscar cidades considerando esse recurso essencial para quem trabalha online. O nomadlist é um site bem interessante, porque reúne informações fundamentais para remote workers, como custos das principais cidades para nômades, segurança, atividades, e claro, Internet.
Depois das experiências em hostels, passei a alugar Airbnbs ou fazer house sitting quando decidia ficar um tempo maior em uma cidade. Foi assim que passei um mês em São Francisco sem ter gastos com acomodação - e de quebra tinha um apartamento com Internet ótima só para mim.
Além da importância de uma boa Internet, aprendi que criar um bom sistema de hábitos e entender a minha forma de organização e produtividade foram essenciais para não me perder em distrações. As ferramentas que mais me ajudaram nesse processo foram:
Podio | Para mim, é a melhor plataforma para gestão de projetos. Tem funcionalidades como CRM, gestão de prazos e entregas, colaboração entre times, etc.
Zoom | Fundamental para reuniões e para gravar encontros. Eu programava as reuniões periódicas para gerar um link exclusivo e facilitar a organização da agenda.
Trello | Eu sou uma pessoa visual, e o Trello tem um sistema de “cards” super intuitivo que funciona para manter o acompanhamento de tarefas simples.
Slack | Sou apaixonada pelo Slack como ferramenta de comunicação interna. Tínhamos canais sobre os projetos e times, e deixávamos o Skype e Zoom para a comunicação com o público externo.
3. SE SENTIR EM CASA NÃO TEM A VER COM UM LUGAR
O apego é uma característica comum aos seres humanos. Temos o costume de achar que as coisas, pessoas e até mesmo lugares nos pertencem.
Me arrisco a dizer que a maioria dos lugares que conheci foi apenas com uma mala de mão. E em viagens mais longas (de 6 meses a 1 ano), levava uma única mala de 23 Kg. O fato de estar sem grande parte dos meus pertences me fez perceber que realmente não preciso de muito para viver.
Na minha percepção, o que importa não são coisas, e no fundo a sensação de “se sentir em casa” tem mais a ver com sentir-se bem na própria companhia do que necessariamente com um lugar. E isso só foi possível quando comecei a meditar em uma das minhas viagens. Mas, isso é assunto para outro post.
4. SERES HUMANOS SÃO IGUAIS (MAS DIFERENTES)
É inegável que a oportunidade de conhecer e conviver com pessoas do mundo todo amplia a consciência e ajuda a quebrar paradigmas. Quanto mais eu viajava, mais eu percebia que o que nos conecta - independente da etnia, crença, orientação sexual, origem, etc - é a busca por amar e ser amado. Não no sentido romântico da palavra, e sim, a capacidade de enxergar o outro como ser humano. Reconhecer que, no fundo, somos todos uma coisa só.
Um sorriso, uma palavra de incentivo, um gesto de aceitação, uma fala empática abriram muito mais portas do que qualquer outra coisa.
5. DEPOIS DE UM TEMPO, CRIAR UMA BASE É UM MOVIMENTO NATURAL
Participo de muitos grupos de digital nomads e percebo que um movimento natural após muito tempo viajando é fazer viagens mais longas ou escolher um lugar para criar uma base “fixa".
Foi essa minha intenção ao me mudar para Vancouver: eu tinha conhecido a cidade em 2016 e na época pensei que se fosse para me estabelecer em algum lugar de forma mais permanente, seria aqui. E foi o que fiz. Pesquisei as possibilidades de visto de longa duração, consegui o Working Holiday Visa e me mudei em 2018. Assim que me mudei, conheci o meu marido e hoje sou Residente Permanente do Canadá (o que também é assunto para outro post).
É claro que a vontade de viajar continua aqui. E na verdade, nada impede de adotar uma base e fazer slow travel, já que viajar constantemente pode ser cansativo, e a comunidade nômade já alertou sobre a importância de equilibrar esses dois mundos.
6. NO FIM, É TUDO SOBRE AS RELAÇÕES QUE A GENTE CRIA
Sem dúvida, poder viajar enquanto trabalha é um privilégio. Mas, para mim, o objetivo não é contar o número de países e de cidades visitadas. Não é uma corrida sobre quem viveu o maior número de experiências ou conheceu todos os países do mundo. Ser nômade digital é experienciar o mundo com cuidado, e integrar os aprendizados que essas experiências trouxeram. É viver relações genuínas e impactar positivamente cada novo canto conhecido.
É sobre mergulhar em si mesmo, explorar limites pessoais e criar conexões que vão além do computador. É sobre chegar em um novo lugar com um olhar atento, de aprendiz, e estar aberto às novidades do caminho.
É ser grato por cada lição dessa jornada. E perceber, que no fim, tudo acontece como dever ser. <3
Se você teve alguma experiência como nômade digital, ou com viagens em longo prazo, compartilhe comigo. Vou adorar saber.
Com amor,
Isa